Um estudo sobre o legado dos super-heróis e suas identidades secretas

Alguns anos atrás, quando integrei a equipe editorial do site Marvel616, escrevi um artigo em duas partes falando sobre o papel dos super-heróis como representantes da sociedade em que estão inseridos e também como suas identidades secretas ficam presas em um eterno loop sem realmente se desenvolver. Para fins históricos (e porque gosto muito de ambos os textos), reposto eles novamente aqui.

Seu herói é o manto ou a identidade secreta?

*Artigo publicado originalmente em 19/11/2016 no Marvel616.

Em fóruns da internet, podcasts, análises de mercado e até nos debates semanais nas redes sociais, o momento atual das histórias da Marvel é o assunto que tem estado em alta nos últimos anos. Com a postura da Marvel em passar o manto ou mudar drasticamente a identidade de seus principais heróis, não poderia ser diferente. Não poderia ser melhor.

Um dos primeiros heróis dessa nova geração foi Sam Alexander, o Nova. Adolescente de origem latina, Sam estreou em Marvel Point One, revista que gerou vislumbres do futuro da editora e inúmeras reclamações dos fãs. Afinal de contas, Richard Rider sempre havia sido o principal Nova terrestre e, após seu sacrifício em O Imperativo Thanos, parecia descabido colocar um adolescente do Arizona para assumir o manto. Mas o moleque segurou as pontas e mesmo sua revista tendo um estilo completamente diferente, conquistou sua parcela de fãs e se provou digno do uniforme.

Logo em seguida, Kamala Khan, adolescente inumana, ganhou poderes com a propagação das névoas terrígenas e assumiu o manto de Miss Marvel, abandonado há alguns anos por Carol Danvers. Mais uma vez, a reclamação dos fãs foi grande, dizendo  que a Marvel agora só pensava em como agradar as minorias, mesmo a Miss Marvel sempre tendo sido uma representante da minoria feminina. Mais de dois anos depois, a heroína é um dos principais nomes da nova geração de heróis da editora e conta com histórias elogiadíssimas pela crítica.

Os exemplos que dei são de novos heróis já consolidados no imaginário popular dos leitores e fãs casuais. Afinal de contas, quem nunca ouviu falar da super-heroína muçulmana ou do herói espacial adolescente que, inclusive, já foi personagem fixo de um desenho animado do Homem-Aranha? Claro, em ambos os casos, o manto pertencia a um herói classe B ou C e, antes disso, poucos não-leitores conheciam a franquia. Mas até uma década atrás, o Homem de Ferro também não era um herói classe B?

A discussão que quero propor se baseia na seguinte pergunta: o seu herói é o manto ou a identidade secreta? Você confia em Tony Stark para te defender ou no Homem de Ferro? É o Peter Parker ou o Homem-Aranha que te inspira? O que o codinome heroico significa para você?

Duas gerações de heróis

Particularmente, quando penso nisso, vejo que há casos e casos. Percebo que o manto do Capitão América é muito maior que a identidade Rogers — que a representação viva dos ideais americanos, da luta por um país livre e dos direitos assegurados à sua população não pode ficar presa a um homem. Mas também sei que o leitor desenvolve uma relação real com os personagens debaixo da máscara. Sei, por exemplo, que o Homem-Aranha é um dos maiores heróis da editora justamente por ter sua identidade secreta desenvolvida de modo tão verossímil e identificável, a ponto dos fãs não gostarem da nova namorada de Peter Parker e ficarem chateados por ele nunca ter se casado de fato com Mary Jane Watson. Mas isso não nos dá o direito de acharmos que aquele herói deva ficar para sempre atrelado àquele que porta a máscara inicialmente.

Peter Parker cresceu. O nosso velho Pete, agora é um empresário de sucesso com uma companhia multinacional. Seu nome ficou maior que o de Tony Stark no meio industrial e ele chegou onde sempre quis. Peter continua sendo o Homem-Aranha – mas com problemas de um empresário, de um homem adulto. E isso é bom. Deixemos as aventuras do Homem-Aranha colegial, do jovem que tem vergonha de falar com a garota que gosta e do adolescente que falta muito na escola porque estava combatendo o crime para Miles Morales. Nós ainda temos um Homem-Aranha jovem, só que com outro nome.

Peter construindo o futuro com as Indústrias Parker

Boas histórias são feitas independente do herói que a protagoniza. Bons escritores conseguem fazer tramas espetaculares para o Herói X e adaptá-las para o Herói Y, se necessário. Já tivemos muitos exemplos disso no passado. Porque, no final, o que faz com que sejam boas não é o protagonista, mas a narrativa. Obviamente, existem exceções, mas será que é realmente necessário manter o herói para sempre jovem em detrimento de novas personalidades e indivíduos? Será que é justo ficar mais de cinco décadas partindo do pressuposto que Peter Parker é um adolescente que ama Mary Jane e que vai ser feliz pra sempre ao lado dela mesmo passando por problemas financeiros todos os meses? A que ponto chega a mediocridade de não querermos ver o crescimento de alguém, mesmo um personagem fictício, apenas para que ele continue do jeito que sempre gostamos?

O manto representa o ideal criado por uma pessoa. O manto é uma ideia. Se você não leu ou não se lembra, recomendo a fase de Ed Brubaker à frente do Capitão América. Lá é possível ver o dilema moral de Bucky Barnes antes e depois de assumir o uniforme de seu falecido amigo. Todo o sentimento de indignidade, de não-merecimento, de que só Rogers poderia ser o Capitão real. E no final percebemos que não é bem assim. Nem mesmo Steve Rogers queria carregar o peso de representar o maior país do século XX, mas aceitou a tarefa e a fez dignamente porque era necessário. Porque era um soldado. Bucky, quando aceitou a tarefa, o fez para algo diferente, para redimir os seus pecados e seu passado como Soldado Invernal e fazer um trabalho tão importante quanto o que seu amigo fez.

Você já parou para pensar nisso? Em como seu apego e nostalgia pelo personagem talvez o impeça de abrir a mente para histórias maiores, para desenvolvimentos mais complexos e para lutas que você nunca pensou? E eu não falo só das lutas com vilões malignos e super poderosos. Afinal de contas, você segue o manto ou a pessoa?


A substituição de personagens como forma de revitalizar franquia

*Artigo publicado originalmente em 10/12/2016 no Marvel616.

Os principais heróis da Casa das Ideias estão passando ou dividindo seu manto com outras pessoas. Thor, Homem-Aranha, Wolverine, Capitão América, Ciclope… a lista cresce a cada dia que passa e as reclamações também. Continuando a discussão do que vale mais, o manto ou a identidade secreta, hoje iremos analisar o que o público e a editora ganham revigorando os alter-egos e revitalizando marcas.

Há alguns anos atrás, na chamada Era Heroica, o Capitão América dividiu o manto com seu parceiro James “Bucky” Barnes por algum tempo. A aclamada e já citada fase de Ed Brubaker foi um sucesso e os leitores receberam Bucky de braços abertos visto que Rogers estava morto e o processo de sucessão foi natural. O mesmo aconteceu com o menino Miles Morales no universo Ultimate, com Flash Thompson assumindo o simbionte Venom, Daken se tornando uma versão sombria de seu pai por alguns meses, Clint Barton virando o novo Ronin, o Irmão Vodu se tornando o Mago Supremo e até com o Justiceiro sendo uma espécie de monstro de Frankenstein. A narrativa das histórias em quadrinhos mainstream tende a ser cíclica, respeitando a jornada do herói enquanto faz grandes mudanças para retornar, enfim, ao status quo padrão no final. Mas por quanto tempo os personagens podem percorrer esse ciclo sem desgastá-lo?

Por mais que o público reclame das mudanças de alter-ego (sempre ressaltando que as pessoas que mais costumam fazer barulho são as que menos leem), novos heróis costumam penar para cair nas graças do público, em parte por serem “cópias” de outros pré-existentes, mesmo que, no fundo, todos sejam inspirados por arquétipos anteriores até mesmo ao início das HQs. Apoiar novos personagens no manto de um já consagrado, garante uma importância mais rápida, mesmo que pouco duradoura.

Assim, novos alteregos significam novos núcleos a serem explorados, novos antagonistas a serem criados, novo elenco de apoio, novos poderes e novas possibilidades narrativas sem cair em repetições. É só analisarmos a vida de Matt Murdock que, nos últimos anos, já esteve depressivo e no fundo do poço na fase Bendis, feliz na fase Waid e recentemente voltou a uma abordagem sombria na fase Soule. Não seria mais honesto fazer com que o herói passasse o bastão para outra pessoa afim de deixar que uma nova personalidade enfrentasse novas dificuldades e desafios sob o legado do protetor da Cozinha do Inferno? Não necessariamente um novo Demolidor, mas um herói derivado, tal qual o Agente Americano e o Nômade se tornaram para o Capitão América. A tão criticada atitude de morte e ressurreição constantes em um curto período de tempo é um claro resultado dessa estagnação narrativa.

O manto é apenas um símbolo do heroísmo intrínseco a cada personagem

A indústria criativa enfrenta uma grande pressão e resistência na introdução de novos heróis ou franquias. O público, em especial os leitores de histórias em quadrinhos, tendem a querer ler sempre a mesma história por décadas, presos em loops como robôs que se recusam a se atualizar ou a se libertar. Para você, os X-Men que valem podem ser os da formação de Giant-Size X-Men #1, talvez para o coleguinha seja a fase australiana ou a das equipes Azul e Dourada. A memória afetiva e a idade com a qual você teve contato com aquela franquia fazem com que todas as versões de time ou de herói sejam “a que valem” para o leitor A ou B. Tem que se entender que colocar Sam Wilson como o novo Capitão América, não invalida toda a vida de Steve Rogers como o herói.

Revitalizar a marca não é, necessariamente, apagar tudo que ela já foi um dia. É criar uma nova propriedade intelectual que pode convidar um público completamente diferente a consumir aquele produto, seja nos quadrinhos, em jogos ou brinquedos e se inserir mercadologicamente em novos países e nichos de público. Lembre-se que o novo Hulk é asiático — um grande atrativo para o maior mercado do mundo — e a nova Miss Marvel é muçulmana — alcançando o segundo maior grupo religioso e talvez o mais segregado da cultura pop.

Faz-se necessário entender também que esse suposto movimento do “politicamente correto” é apenas a atualização dos heróis representantes da sociedade patriarcal, caucasianas e heterossexual do século passado. Obviamente, algumas mudanças beiram o inacreditável como a revelação de que o Homem de Gelo é gay desde sempre — já que isso nunca foi sequer insinuado antes — mas colocar uma versão alternativa do Wolverine namorando o Hércules ou uma super-heroína lésbica e latina como protagonista de um gibi solo é completamente válido na sociedade que vivemos hoje. Não é agradar as minorias, é incluir para refletir. E isso é outro prato cheio de novas possibilidades dramáticas e narrativas.

Um super-herói não o deixa de ser somente por ser gay, negro, latino ou muçulmano. Ser um herói é superar paradigmas e representar algo maior que isso. É ser humano e decidir abdicar de seu ego para honrar o legado de um símbolo. Uma nova personalidade, com características únicas e diferentes do alter-ego anterior, tentando honrar a herança do símbolo enquanto constrói seu próprio caminho… imagine o quão bom pode ser isso. E quem sabe essa nova geração não pode ter o mesmo peso que os heróis das décadas de 1960 e 1970 no futuro?

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